segunda-feira, 1 de dezembro de 2014

Vermelho - parte primeira



-Ces’t finite ma belle!
            Levava na mão o histórico da faculdade. Na cara, o sorriso caro, sorriso d’amour. As calças justas levantadas pelo suspensório e a camisa com a gravata borboleta vermelha de nó desfeito. Agora a gente casa, Lady Di. Ele a pegou no colo e rodopiou. O vestido branco rasgado do joelho pra baixo esvoaçou cantante.
            -Je t’aime, Renato!   
            Entraram no carro. Ele ganhou quando fez dezoito, mas no volante a moça. Renato se pôs no paletó de ombros largos e Daiane lhe amarrou a gravata no pescoço. Gosto mais folga-da. Ai, revira os olhos, feito! Enfia na cabeça própria o véu de flores. “Na volta eu dirijo ein?” “Na volta”
            -Eu te amo, Lady Di!
            Vrum! Parte o carro. No caminho, músicas d’amour, Piaf e Beirut.
            -É aqui, Renato?
            -Sim!
        Desceram sorrindo tontos. Os braços dados, fingida e teatralmente circunspectos. A igreja vazia, uma ou duas beatas ajoelhadas e quietas, remanescentes de um tempo outro. No púlpito, ele tira do bolso da calça um guardanapo engordurado. Do paletó ela rouba a caneta e diz:
            -É aqui que eu assino?
            -Pois não, senhorita! E eu logo embaixo.
            ...
            -Então agora o senhor é casado?
            -Sim! No papel e na igreja.
            -Não vai beijar a noiva?
            Ele riu. Os dois riram e beijaram. Olhos dele, cor de azuis, cerrados pelo amor ou pelo vento, quem sabe? Os dela, pretos feito jabuticaba, totalmente fechados pelo mesmo motivo. E aquele casamento, sem testemunha ou cartório ou padre, era o de mais valia aos olhos do homem.
            Num ímpeto, grunhiram e correram. As beatas levantaram as cabeças entre irritadas e intrigadas. Ora! gente velha. Entraram no carro, agora oficialmente casados. No porta luvas dois anéis de plástico, um azul - para ele, outro vermelho – par ela. Trocaram as alianças.
            - Senhora Lady Di Locur
            - Senhor Renato Locur D’Oliveira
            E riram, porque o rir era de graça e o casar da maior graça era. O vestido de noiva esse sim fora caro e lhos custaram da cara os olhos. E ao ficar pronto a moça se indigna e rasga, do joelho pra baixo. Ah, meu querido, é a juventude pós-adolescente finita. O carro ia, vermelho ao máximo, e o som tocava alto entre as árvores altas da estrada vazia. Do teto solar vinha um vento enorme e esvoaçante que gritava por Daiane. A menina se põe de pé no banco. Pra fora do carro, todo o tronco, e por algum motivo a pele toda quis o vento e, ora!, em dois dias seria seu aniversário! Dobrou a parte de cima do vestido branco até tocar a cintura, desamarrou o sutiã e ah! Passou o vento pelos cabelos e o tronco estava nu, num total espírito d’amour e de liberdad. A música alta se misturava ao vento amado e os peitos livres cantavam, enfim, a liberdade de um pedaço de pano amarrado.


segunda-feira, 21 de julho de 2014

Insólito

- É injusto, né?
- O que?
- Não sei. Nós dois, o fim
- Todo fim é um começo, Marcelo
- Que merda de frase, Bia
- Então o que é que eu digo?
- Não diz.
- Eu não quero morrer, Marcelo
- Que conversa é essa agora, Bia?
- Não sei. A gente aqui, deitado nesse cais... E se eu caio?
- Se você cair eu eu te salvo
- Mas a gente tá terminando
- Então eu te mato
- Ai, Marcelo!
- É brincadeira, Bia
-...
-...
- Acho que é melhor eu ir pra casa
- Mas você mora em Sampa
- Vou de ônibus
- Boa sorte
- Pra você também
- Último beijo?
- Último
-
-
-
- Tchau, Marcelo
- Tchau, Bia

segunda-feira, 21 de abril de 2014

Morte - introdução

Os mortos ressuscitaram na escura noite da cidade morta
Quando o Sol se foi entre árvores estúpidas e montanhas trépidas, a igreja acendeu as luzes bruxuleantes e irresponsáveis de velas parafinadas e fétidas. A igreja católica, alta construção imponente e monumental, bruxuleava estranhamente entre as casas baixas e coloridas da cidade acidentada. O povo de Cambares, onde ainda se vivia na década de 1920, se viu de cabelos em pé com o repentino e absurdo acendimento de tantas velas no início da noite. Lugar onde luz acesa depois das oito já era coisa de gente vagabunda que não trabalha.
Qual não foi a surpresa daquele povo tão conservador ao ver a igreja de padre Damião acesa ali, às 6 da tarde, quase madrugada nos padrões cambarenses? Alguns moleques, baderneiros, vagabundos audazes, se aproximaram da igreja estupefatos, esperando alguma explicação para a igreja, entidade religiosa, de padre Damião, homem de distinção e inteligência, estar naquelas horas, de tão repente, com velas acesas, portas fechadas e emanando tão estranhos ruídos (vozes fracas e verdes).
Na já escura cidade nordestina, sob uma noite estrelada, cheia de deuses cada uma delas, Cambares ouvia passos lentos e fortes. Como se gigantes bebês estivessem andando sobre o assoalho amadeirado da igreja católica interiorana. Os curiosos se aproximaram e o povo pôde ver a porta, num arranque, se abrir de súbito: homens e mulheres pálidos, meninos e meninas azulados, cães e gatos raquíticos, alterados.

domingo, 16 de fevereiro de 2014

Lígia

Como viver sem ti?
Sem teu amor calado
Sem teu sorriso inexpressivo, duro, misterioso...
Como viver sem ti?

Não há meios
despedaço-me
me faço nada
Sem ti não posso

Por favor, não me abandone
Nem brinque com isso!
Sou teu, teu e teu

Teu brinquedo de criança
Teu ajoelhador barato
Por favor, não sem ti...

Como acordar, dormir
Não posso
Não mais sem seu amor consigo
Preciso-te
Sem você sou poema sem rima
Abelha sem listra, sou nada
Sou o fracasso, a humilhação
humilhado

Perdão,
Sou teu servo
te dou comida
te limpo
te amo

Mas, por favor!
Não me deixes
Não me abandones
Como viver sem ti?

segunda-feira, 6 de janeiro de 2014

Valentina e seus gostos

Sentados à mesa de um bar escuro e quente, bebiam bebidas amargas e doces. Riam risos e sorriam sorrisos deformados do rosto. As vozes saíam entre gargalhadas e olhares incontidos.
  - Noite passada - ele sorria melancólico - Eu... Tive pensando em você, Val
  Ela sorriu seu mais belo e puro sorriso.
  - O que você, pensou?
  - Não ria! Dói mais do que você pensa... Você estava nos meus sonhos- o indicador deslizava pela boca do copo -E foi... meio sujo - mordeu os lábios, mas o sorriso se apagou - A noite inteira... O jeito que você me olhava... Foi meio...
  - Para...
  - Foi meio nojento. Mas eu não posso impedir minha mente de pensar essas coisas...
  - Não faz isso com você de novo....
  - Shhh... Quando eu me deito na cama eu me masturbo pensando em você - nessa parte ele riu e a bebida saiu pelo nariz - Não acredito que eu to te contando isso, mas eu to meio bêbado, então...
  - Você sabe que...
  - SHHHH... Sábado que vem o Max sai da cidade, né? O seu namoradinho... Me encontra lá na minha casa...- por essa hora ele caiu em cima de Valentina
  - Vem, eu te levo pra casa
  - Não conta pra Nadyne
  - Ninguém vai contar nada pra Nadyne
 
Ela o deixou em casa e foi para a sua própria. Se trancou  em seu quarto. Foi tirando a roupa. Posto o pijama ela se deitou. Pensou em tudo. Uma mão entrou por debaixo do pijama fino e invadiu o sutiã. A outra foi à boca. Desceu para o pescoço. Fez o seu caminho até a barriga e por fim encontrou a felicidade dita. Com seus movimentos de contorção se fez feliz a tal Valentina. Ah, que delícia era. Também ele estava nos sonhos dela. Sonhos doces, sonhos cálidos. Sonhos malditos, amaldiçoados. Despertos e irrepletos.

- De casa! De casa!
  - Val?
  - Hoje é sábado - o beijou
  Ele a apertou. Os corpos já começavam a se aquecer. As vozes dispensadas, os sonhos acabados em prol da realidade. De algum modo acabam no quarto dele. Numa vontade desmedida, numa pressa louca e incontida. Ele a joga na cama e vai para cima dela. Num ímpeto, rasga a camisa verde e a boca vai para o colo descoberto. Arranca com uma mordida a alça de silicone do sutiã. A mão puxa com certa força o cabelo sem machucar. Ele se agacha e sussurra em seu ouvido:
  -Sua vez - morde a orelha
  Eles invertem as posições e Valentina se aproveita do feito. Abre a camisa do menino e com unhas afiadas traça um caminho vermelho em seu peito. A boca vai para a boca do outro e na hora de se separar um lábio acaba sendo mordido. O gosto do sangue é uma mistura de ferrugem e sal. Na meia luz do quarto o rapaz começou a rasgar a meia calça da moça numa vontade louca. Foi arrancando, depois, o shortinho com a ajuda do rebolado doce de Valentina. O calor tocava a pele dos dois de fora para dentro e de dentro para fora.
  Nessa hora sublime que ela ficou só de calcinha, a mão dele foi para dentro da peça macia e cinza e os vizinhos ouviram à Valentina e a seus altos gemidos. Ela tirou as calças dele e segurou o membro teso com as mãos para pôr na boca. O fez e  foi digna de filmes. Aquilo, senhores, só pode ser descrito como delirante. O adolescente a ajudava com a mão entre os cabelos e os deliciosos puxões. A boca ia e vinha numa mais que boa festa.
  Ele foi para cima dela e fez o seu trabalho com a língua. As unhas de Valentina lhe marcaram toda a pele, mas como era boa a dor o tal nem se importou. O resto do dia, meu caro, isso não conto. Porque fez-se o calor e o riso. Então o frio e o choro. Então veio a culpa. Mas no fim restaram dois corpos jovens e imaturos prontos para mais sonhos delirantes e vozes descomunais. Sonhos vem e vão. Os corpos ficam.

Para quem puder ler

são tantos os poucos nomes que
V
i
são tão loucas as vozes que um dia eu ouvi e no outro
A
mei
e amei tanto o que encontrei por aí um amor
por entre as cores de sonhos tão
de
L
iciosos
sonhos incríveis e repletos de incrível
vadiag
E
m
da mais pura e
e
N
cantadora.
você me enche de
valen
T
ia
amor, eu amo tanto o teu
sorr
I
so
e sua boca me termina, me mata e acaba
sou, perto de você, o
me
N
or
e agora acabo esse
poem
A.
te amo, não se esqueça