domingo, 5 de junho de 2022

Taz Mania

 - AAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAH-ÍÍÍÍÍÍÍ´´IÍÍÍÍÍ´´IIÍÍÍ´´IÍ´´ÍIÍÍ

-Empurra!

-ELE NÃO SAI DOUTOR NÃO SAI! ESSE MENINO NÃO QUER SAIR!!!

A técnica de enfermagem e o médico trocaram olhares: "Deus, por que no meu plantão?". O médico, batendo na seringa: Olha a epidural quentinha! Relance, a grávida vê a agulha, dentro faz um "plim!" e AAAAIIII tudo de novo. A técnica tenta se aproximar da impaciente e fala "calma...": a mãe grunhe tal qual o Taz-Mania e tenta morder a pobre profissional indefesa. E o salario, ó!

12 horas... 12 H O R A S! E a epidural nada! Seria melhor terem me dado aspirina! Se fosse pra ser assim, melhor ter tido com a parteira em casa. Mas eu mato aquele muquirana desgraçado! Me deixa de barriga cheia e depois não tem coragem de pagar uma cesária? A A A I I I! Se essa criança não sair agora, eu juro que costuro o pau do pai pra dentro da barriga, arranco os olhos e enfio no cu! NO CU!

Ela se levanta apoiando na cama obstétrica, solta um uivo tão alto que acorda um velho tetraplégico dado como morto, que arranca tubos, fios, aparelhos, fendas e trecos e sai dando piruetas olímpicas que desclassificam Daiane dos Santos da seleção brasileira.

O médico: Eu vou buscar o fórceps! E some pela porta, deixando para trás o som dos passos curtos amedrontados e as rachas que povoam o recinto. A técnica olha pra enfermeira, que pronto se vira anotando numa prancheta: "Ah, sim, muito importante, muito importante!" Ela revira os olhos. Nesse meio tempo a grávida andava em passos tão largos - acompanhados de sons guturais - que não fosse a técnica lhe parar o trote teria apanhado o médico.

- O QUE QUE FOI?

- Volta pra cama ou essa criança vai cair no chão!

- O que?! Cair?! DEIXA QUE CAIA! Ele não quer sair, ele não vai sair! A culpa é do filha da puta do pai dele! AAAAIII

- E pai pra que serve? Você por acaso saiu do cu do seu pai?

- EU SAÍ DO SEU

Esta enfermaria t e s t a os meus limites!

- Para de gritar! Na hora de fazer tava bom!

-Tava! E sua mãe não tava lá!

A enfermeira e aproxima apaziguando; entra o médico triunfal sorrindo, erguendo o fórceps: "Cheguei!" como quem carrega a Copa do Mundo inundada de euros; outra técnica no fundo, ágil, assopra a zarabatana e VUM - direto no lombo da égua, que relincha ainda uma última vez antes de cair nos braços dos competentes do hospital e ser colocada na cama, ressonando, suavemente, o botão de uma flor nascida na manjedoura e ladeada por 3 reis-magos benevolentes.

Cada um dos magos, incluindo a técnica que não saiu do cu do meu pai, segurava as pernas da santa enquanto o médico sentado de frente enfiou os dedos para checar dilatação e fez "ui!ui!ui!ui!ui!" tirando a mão e constatando os dedos mordidos. Diagnosticou: "É uma fera". Segurou o fórceps com a segurança quase-imortal de Aquiles e meteu o ferro nas entranhas do útero, pinçou a coco da criança e puxou, suando, fazendo todo tipo de caretas e sons guturais piores que a pobre mãe dopada.

- Me ajudem!

- Claro, doutor! - a enfermeira o puxa pelas costas, grunhindo e dobrando o rosto - Vocês não vão ajudar?!

Os três magos em fila: - Sim, chefe! - Sim, chefe!
- Sim, chefe!

E todos urrando em uníssimo, como a besta quando Ele a atirou ao inferno, num estampido ploc! foram ao chão, voando a criança pelos ares de olhos arregalados e pulmões intensos, os braços movendo nadador: cordas vocais emitem sons radiantes que iluminam a sala, a própria luz da sala forte, oscilante, alva e negra, o cheiro adocicado do mundo, as múltiplas correntes, o frio de fora, o calor de dentro, tum-tum-tum no peito, adrenalina e vibrações cataclísticas do êxtase em Ser.

quarta-feira, 1 de abril de 2020

brutal



te libertar fere o meu egoísmo e esmaga a minha vontade, mas cresce em tons esverdeados o amor no meu ato e se multiplica a vida pelo eterno em orquídeas e tulipas e abelhas e insetos. a saudade inevitável, no entanto o nosso encontro breve e eterno retornando de todos os cantos e culminando à luz do Sol. eclodem flores e cristais que recolhemos sobre a terra: o inebriante odor da nossa Mãe rodeia o nosso.

saboreia a tua independência de mim, mas o retorno é eterno e inquebrável. ou então, pode-se criar o novo. se me fiz matéria foi por melhor nos fazer feliz - e a vida, a vida... afinal, que serve a razão sem a experiência e qual a sabedoria que ainda pode chamar -se de tal contanto que não esteja pronta : para morrer. se entristece o meu coração, mas adoece a alma pronta para se solidificar e brilhar - mais!

vai e não volta se não for a tua vontade.






terça-feira, 23 de outubro de 2018

éramos quatro: e entre nós, um ator. os três seguíamos criando e ele - representava. éramos sol, rainha de paus e o louco. ele: baralho todo.

é bonito ver o ator chorar. e se lhe machuco: é para ver crescer a atuação, afinal, se tornar algo traz conforto que é o oposto, o oposto...

enquanto criávamos, chegou o ator de pouco jeito e muitos modos, falando alto. pronto para: chicotear todos que não se curvassem. à sua atuação. à sua voz elevada. ao seu medo enterrado e vingativo.

mas desconhecia o ator a habilidade de quebrar o chicote ao simplesmente aguentar a chicotada. íamos ensiná-lo: a desfazer a arma.

eu queria que o ator nunca acordasse. os outros dois o queriam no mundo: nos tempos que vivemos, apenas o cômico pode superar o trágico e a subversão nasce da própria existência, da experiência. meu ator no mundo : eu te criei...

sexta-feira, 5 de outubro de 2018

Lunático

o Lunático brilha em tons equívocos
e quem o olha enxerga o seu andar extra-terreno
o Lunático prende em suas mãos cristais
destrói
e cria,
vive, enfim
mas há algo... há algo...

cavaleiro de prata
sua coluna desenha montes e vales em desnível e desalinho
há, atrás, na nuca, uma luz que não se apaga, mas
talvez por ser solitário o mundo da lua,
talvez por não ter as vistas nas costas,
o Lunático desconhece a luz que brilha em sua corcunda

acontece que a luz nunca se apaga
e ao se aproximar de algo... algo... uma coisa... a coisa a que chamam:
realidade
se atreve a Luz a brilhar mais
lançando sobre todas as coisas à frente do E.T. sombras enormes e eternas que cobrem
o quê? o quê?

subiu às montanhas perguntar ao sábio:
"ó santo que é que carrego em mim que sempre que me aproximo do Algo, menos vejo?"
ao passo que lhe respondeu o anjo:
"ora como posso eu vivendo em atmosfera terrestre responder sobre qualquer uma a luz que brilhe menor do que o sol?"
eram os olhos sápios muito acostumados à luminescência maior para brilho tão pequeno

então desceu o Lunático às ruas e aos becos e depois aos bueiros e  para a escuridão perguntou:
"sujeito de todas as trevas, se já não é extinto o brilho que outrora cobriu de sombras as minhas vistas
me responde:
que é isso que carrego em mim que sempre que me aproximo da Coisa, menos vejo?"
ao passo que o lascivo, rodeado por suas bestas, lhe confidenciou:
"ainda alumbra a tua luz a esses becos, sujeito extra-mundano
e a todos neste canto já foram oferecidos essa mesma luz
vá, então, de volta pelo mesmo caminho que vieste
para que não traga lembranças de uma vida passada e sem valor"

o E.T. volta aos seus cristais e gemas transparentes
são todas pedras
milenares e sem vida
e lhe agarram as pernas do conforto e da rotina e quando muito ele sorri
s o rr í
mas ainda há algo... algo...
que se esconde nos cristais de prata
que brilha na sua nuca
que não pode o Sol apagar na Lua
o que é? o que é?

vai o Lunático se desfazendo
de traje e carne e moral e ideia
no caminho
o caminho que trilhou
acompanhado de aves e répteis
para a Terra... o Terreno...
o Imanente... a Imanência...

terça-feira, 20 de junho de 2017

Profano

(ou Os maus pensamentos)

Banha no cálice inerte
doce gosto a voz do Diabo
maior em grotesca parte
profanando a luz mo'acabo

Apresamento estridente
do poeta a mente subo
preterido o valor frente
del mudo a canção adubo

floresce ideia em la mente
sussurro de falso esdrúxulo
fatal o riso do inferno
Escárnio maldito e s u j o

sábado, 6 de maio de 2017

Reflexões - II

Morte. Transcendental. Travessia.

i

O refinamento e o caminho ao garboso não sãoserão na beleza e na elegância, afinal, o refinamento vai ao sentido oposto e antagônico ao recrudescimento e a verdade; a, portanto, a pureza. É preciso ao açúcar se banhar e enlamear no enxofre antes de estar fino e branco, a síntese da sujeira e escárnio do inferno é a limpidez e a doçura em consistência fina e arenosa mergulhada em cafeína-droga e retinta a boluras e condimentos. A verdade crua da cana é melhor extraída à cachaça e à garapa, que, um pela mente e o outro pela língua, trazem qualquer verdade à tona quando postas à boca. A alvisse cai melhor à flor: é de se suceder da natureza lhe clamar dessa forma antes da exigência do deleite do ser Outro

ii*

Submerso em meio ao pecado do desespero, atravessa e firma o vazio na tropa sacrofana incolor e fria. Encruste em carne o nada resoluto d'alma e a solidão obsessora do ser. Cai enebriado o véu denso da estarrecedora fumaça 'liberdade', sufocando em pulmões livres cabritos e bezerros, cordeiros de sacrifício. Consome a reverberantes goles e tragadas a cronológia palpitante do grotesco e belo aos pedaços ignóbeis da matéria. Absorva, absorva a nectarina amarga retinta a mel lhe empurrada à boca previamente cerrada, agora aberta à mosca e ao vermináceo da Terra.

iii

você não sabe o nome da derrota. de longe, olhou pro abismo e se atirou no fundo do poço. pra cima, a caminhada cansa, dói carne e osso e tudo. a luz machuca o olho, mas há maior a dor de cair profundo e fundo o sempre em mais. simplifique aqui a sua verdade, nem tudo se faz na massa e no meio do mundo. humilhação, bicho e cuspe de gente

iv

é pela verdade que me pergunta? sim! sim! e sim! é tudo verdade! afinal, não se pode gostar de um livro sem gravuras. uma molécula disse sim à outra num momento disperso e eis-nos aqui: caminhando à finalidade nostra. erguei-vos augusto, augusto como eres. faz-fazei o que há de ser feito-fazido, aqui o que há é o trabalho : antropofágico o ser mais belo. cabeçada, cabeçada homana: dói coco, esclareceia mente. que chora, pierrot? pode suceder de estar a colombina com o coringa:uma carta? fatalidade! ainda estais vivo, cordeiro gran-menino lúgubre. fúnebre caprinae. gran-rapaz . . .

v

Que o bem e o mal não há. Toda proposta e verdade maniqueísta no mundo pode ser quebrada por qualquer princípio de reversibilidade que haja. É quando se sucede de perceber que nada significa nada nunca. Nem mesmo à matemática (me sacrifique, pois então!). O que é, é Deus, que tudo é e nada se pode ser diferente dEle. Deus mata, Deus estupra, constrói e destrói, recombina logo em seguida. O que é, é também o destino. Cada um com seu propósito, sua hora e vez, que cada um é, senão, Deus. A unidade do indivíduo está na busca da verdade, singularidade, partícula mínima, universalidade. Não se é um, nem outro: os dois e todos. Outra coisa que não há é a liberdade. O homem aqui nasceu preso e amarrado: pois ao fugir da designada missão e verdade, se corre a ela, que aqui e acolá a estrada se parte, mas síntese de todos é a mesma. Bicho-homem é isso aí que vê suncê - de se quebrar e recolocar à realidade, tése e anti-tése num só: o divino! É o que há

vi

Todo mundo envelhece. E sem o tempo, haveria alegria? É por sinuosas trilhas que se obtém a verdade e só é chegada quando a finalidade é tocada. Fremosa a visão da realidade, não prenda ao mundo o tormento que muy cruel é o sofrimento e vão no desconhecido e no clareado. O ar! O ar! Efêmeras são todas as belezas e também o são os dissabores. Caminha péanteopé, devagar no caminho, pra trás não se vai nunca. A relação se evidencia na experiência e o tombo lhe serve de ensino do levantar preciso, afinal, a pessoalidade, subjetividade só pertence ao eu que não é o todo, digo, só você é mesmo quem de você sabe e sente. Viva a lucidez e a vontade! Obtidas juntas e combinadas serão o transcendental humano. Transcendental humano.

Reflexões - I

Amor e solidão

i

Sempre expostos à coletividade estaremos os sós frente ao real. E quando te penso e toco e experimento, é quando me perco de minha consciência e nego as verdades de minha razão. Ando deitando-me ao meu eu-essência, e é o movimento das costelas do peito seu que me garante o ar à célula. Ao teu encontro, me entrego enfim à solidão e fecho afinal as portas do resto da gente no mundo para ir ao encontro do eu e procurar enfim o seu em mim e afinal o eu no seu. Sucede do momento crucial do seu calor aprofundando ao meu, o achado da finalidade do intuitivo de meus sonhos. Flui o rio sem margens - transbordante, asfixiador e esplendoroso -; meu fatal amor

ii

É a instabilidade de andar na corda bamba da certeza que quando a sopram, em ondas transversais e desesperadas, se desfaz e o equilibrista cai engolindo a mosca, a pulga e tudo. Acontece para a gente no mundo o cair como um mergulho para aprendamos:
Flui o tempo! Respeita a corrente!
Shiiii... pelo figo da figueira que o passarim bicou.... ainda estou aqui, meu bem

iii

Aproximar-me a você é experimentar meus medos e confrontar minhas não-verdades. A intensidade do teu menor olhar e do sentimento do teu cheiro me elucidam por todo o caminho da incompreensível. Buscar-te é adentrar a gruta escura coberta pelo céu estrelado e cercada pela mata sem saída da minha mente, esbarrando em estalactites e estalagmites pontiagudas e úmidas prenunciando o abismo incerto do que encontrarei embaixo. 
São teus olhos siderais que a quem primeiro desapercebido olha parecem o firmamento encrustado de brilhantes prateados e no entanto a mim gritam mudos as verdades do Universo que nos esforçamos a compreender, mas porém nem mesmo o mudo ouve o quieto grito o quão calado esteja. Sente, sente...

iv*

A personificação do desejo não se limita à carne. O cheiro e a vontade se apegam aos sentidos e ao peito, mas há muito mais nas camadas da inconsciência e subjetividade que se desvelam as sensações e sentimentos. Ainda que as coisas sejam sentidas e experimentadas, seria preciso para a clareza do espírito, o coco, o peito e o caminho a racionalização do inatingível. Aproximar-se à essência sem nunca obter a forma, o fracasso serve de base à verdade posta à realidade. O que não vêem os olhos não pesa ao peito, mas é preciso experimentar o mundo de olhos expostos à luz para que se veja e então lho ouça o miocárdio - tum-tum; tum-tum -; ainda esteja o conforto na ignorância, não vai aceitar a natureza e a coletividade a bobice do ser, pois a verdade subjetiva ainda procura a realidade na ausência do sentido. E agora? E então? Como se desvela e mostra a relação? Bobice, estupidice, babaquice. A experiência atesta a realidade, objetividade e a análise é formada pelo modelo. Aqui: fracasso. Agora: o próximo passo.

v

tu te cativas pelo cheiro, pela vontade. tem pele e toque e cuidado. mas e o outro: em que se cativa em ti? tu te torturas pela ideia e submete a ela de espinha curva. morres na praia, à espreita do mar salgado e belo, que burro só atravessa rio e lago

vi

As horas que gastei na ocupação dos olhos seus não me serão ressarcidas nunca. Ora, senhor meu amor, pois pague-as bem que me perco em delírio e encanto ao imaginar a boca sua queimando os lábios meus. As verdades das curvas que secretas só eu lhe vejo me dizem que é destino a fazer-me, coitado, margarina. O menos toque da sua epiderme me causa a sensação que não pode a endorfina combinada à dopamina! Meu bem, o menos toque seu pode me eletrocutar inteiro. Me quedo tonto e me vejo de todo bobo ao obter qualquer sinal, bandeira, besteira que me venha do vosso gesto. E então os sábios dirão: "da idade!". E que da idade seja, meu bem, é fato! O seu corpo aproximado ao meu reaje numa infinda erupção. É químico, não está em minhas mãos. Bonito, por tudo isso, perdão! Efeito colateral. Tesão!

vii*

Meu amor, se procura profundidade vá às Fossas Marianas. I'm just having my time! É bem verdade, minha moça, que eu te contei que sou dado à literatura, li Marx, perco horas com estudos de Spinoza e já nós discutimos Coppola, só não lhe disse que agora o meu momento é outro. Já não estou nessa pauta. Quero só te dizer que amo e marcar a próxima foda, vamos celebrar a juventude nostra. Quero comer fast-foods caros e viver americanizado. Quero fingir que acredito que mais sobre tudo vale a liberdade e todo resto me enche o saco. Não te enche todo esse blá-blá-blá de que "eu nem sei quem sou"? Anda, me diz: qual a última tendência da moda? Meu sonho era morar na praia. Caviar? Dizem que tem gosto de buceta, quem sabe? Quantas pessoas você beijou ontem? Eu mesmo não lembro depois da quinta boca. Ouça bem, querida: não sei se lhe contaram, mas o mundo é um moinho e, veja, esta é a última referência que faço, pois, se já são difundidas e rasas, não são fúteis o bastante para mim. Vem, quero comer um biscoito e a bolacha, que nessa vida muito se acha, mas o pé-pós-pé é fácil. Anda, menina! Sacode a poeira, me dá um beijo que se não for dado eu gosto roubado. Tonto eu? Tonto é quem me chama. Só quero gozar um pouco, que culpa há nisso?