segunda-feira, 21 de abril de 2014

Morte - introdução

Os mortos ressuscitaram na escura noite da cidade morta
Quando o Sol se foi entre árvores estúpidas e montanhas trépidas, a igreja acendeu as luzes bruxuleantes e irresponsáveis de velas parafinadas e fétidas. A igreja católica, alta construção imponente e monumental, bruxuleava estranhamente entre as casas baixas e coloridas da cidade acidentada. O povo de Cambares, onde ainda se vivia na década de 1920, se viu de cabelos em pé com o repentino e absurdo acendimento de tantas velas no início da noite. Lugar onde luz acesa depois das oito já era coisa de gente vagabunda que não trabalha.
Qual não foi a surpresa daquele povo tão conservador ao ver a igreja de padre Damião acesa ali, às 6 da tarde, quase madrugada nos padrões cambarenses? Alguns moleques, baderneiros, vagabundos audazes, se aproximaram da igreja estupefatos, esperando alguma explicação para a igreja, entidade religiosa, de padre Damião, homem de distinção e inteligência, estar naquelas horas, de tão repente, com velas acesas, portas fechadas e emanando tão estranhos ruídos (vozes fracas e verdes).
Na já escura cidade nordestina, sob uma noite estrelada, cheia de deuses cada uma delas, Cambares ouvia passos lentos e fortes. Como se gigantes bebês estivessem andando sobre o assoalho amadeirado da igreja católica interiorana. Os curiosos se aproximaram e o povo pôde ver a porta, num arranque, se abrir de súbito: homens e mulheres pálidos, meninos e meninas azulados, cães e gatos raquíticos, alterados.