terça-feira, 23 de outubro de 2018

éramos quatro: e entre nós, um ator. os três seguíamos criando e ele - representava. éramos sol, rainha de paus e o louco. ele: baralho todo.

é bonito ver o ator chorar. e se lhe machuco: é para ver crescer a atuação, afinal, se tornar algo traz conforto que é o oposto, o oposto...

enquanto criávamos, chegou o ator de pouco jeito e muitos modos, falando alto. pronto para: chicotear todos que não se curvassem. à sua atuação. à sua voz elevada. ao seu medo enterrado e vingativo.

mas desconhecia o ator a habilidade de quebrar o chicote ao simplesmente aguentar a chicotada. íamos ensiná-lo: a desfazer a arma.

eu queria que o ator nunca acordasse. os outros dois o queriam no mundo: nos tempos que vivemos, apenas o cômico pode superar o trágico e a subversão nasce da própria existência, da experiência. meu ator no mundo : eu te criei...

sexta-feira, 5 de outubro de 2018

Lunático

o Lunático brilha em tons equívocos
e quem o olha enxerga o seu andar extra-terreno
o Lunático prende em suas mãos cristais
destrói
e cria,
vive, enfim
mas há algo... há algo...

cavaleiro de prata
sua coluna desenha montes e vales em desnível e desalinho
há, atrás, na nuca, uma luz que não se apaga, mas
talvez por ser solitário o mundo da lua,
talvez por não ter as vistas nas costas,
o Lunático desconhece a luz que brilha em sua corcunda

acontece que a luz nunca se apaga
e ao se aproximar de algo... algo... uma coisa... a coisa a que chamam:
realidade
se atreve a Luz a brilhar mais
lançando sobre todas as coisas à frente do E.T. sombras enormes e eternas que cobrem
o quê? o quê?

subiu às montanhas perguntar ao sábio:
"ó santo que é que carrego em mim que sempre que me aproximo do Algo, menos vejo?"
ao passo que lhe respondeu o anjo:
"ora como posso eu vivendo em atmosfera terrestre responder sobre qualquer uma a luz que brilhe menor do que o sol?"
eram os olhos sápios muito acostumados à luminescência maior para brilho tão pequeno

então desceu o Lunático às ruas e aos becos e depois aos bueiros e  para a escuridão perguntou:
"sujeito de todas as trevas, se já não é extinto o brilho que outrora cobriu de sombras as minhas vistas
me responde:
que é isso que carrego em mim que sempre que me aproximo da Coisa, menos vejo?"
ao passo que o lascivo, rodeado por suas bestas, lhe confidenciou:
"ainda alumbra a tua luz a esses becos, sujeito extra-mundano
e a todos neste canto já foram oferecidos essa mesma luz
vá, então, de volta pelo mesmo caminho que vieste
para que não traga lembranças de uma vida passada e sem valor"

o E.T. volta aos seus cristais e gemas transparentes
são todas pedras
milenares e sem vida
e lhe agarram as pernas do conforto e da rotina e quando muito ele sorri
s o rr í
mas ainda há algo... algo...
que se esconde nos cristais de prata
que brilha na sua nuca
que não pode o Sol apagar na Lua
o que é? o que é?

vai o Lunático se desfazendo
de traje e carne e moral e ideia
no caminho
o caminho que trilhou
acompanhado de aves e répteis
para a Terra... o Terreno...
o Imanente... a Imanência...