-Ces’t finite ma belle!
Levava na mão o histórico da
faculdade. Na cara, o sorriso caro, sorriso d’amour. As calças justas
levantadas pelo suspensório e a camisa com a gravata borboleta vermelha de nó
desfeito. Agora a gente casa, Lady Di. Ele a pegou no colo e rodopiou. O
vestido branco rasgado do joelho pra baixo esvoaçou cantante.
-Je
t’aime, Renato!
Entraram no carro. Ele ganhou quando
fez dezoito, mas no volante a moça. Renato se pôs no paletó de ombros largos e
Daiane lhe amarrou a gravata no pescoço. Gosto mais folga-da. Ai, revira os
olhos, feito! Enfia na cabeça própria o véu de flores. “Na volta eu dirijo
ein?” “Na volta”
-Eu te amo, Lady Di!
Vrum! Parte o carro. No caminho,
músicas d’amour, Piaf e Beirut.
-É aqui, Renato?
-Sim!
Desceram sorrindo tontos. Os braços
dados, fingida e teatralmente circunspectos. A igreja vazia, uma ou duas beatas
ajoelhadas e quietas, remanescentes de um tempo outro. No púlpito, ele tira do
bolso da calça um guardanapo engordurado. Do paletó ela rouba a caneta e diz:
-É aqui que eu assino?
-Pois não, senhorita! E eu logo
embaixo.
...
-Então agora o senhor é casado?
-Sim! No papel e na igreja.
-Não vai beijar a noiva?
Ele riu. Os dois riram e beijaram. Olhos
dele, cor de azuis, cerrados pelo amor ou pelo vento, quem sabe? Os dela,
pretos feito jabuticaba, totalmente fechados pelo mesmo motivo. E aquele
casamento, sem testemunha ou cartório ou padre, era o de mais valia aos olhos
do homem.
Num ímpeto, grunhiram e correram. As
beatas levantaram as cabeças entre irritadas e intrigadas. Ora! gente velha.
Entraram no carro, agora oficialmente casados. No
porta luvas dois anéis de plástico, um azul - para ele, outro vermelho – par
ela. Trocaram as alianças.
- Senhora Lady Di Locur
- Senhor Renato Locur D’Oliveira
E riram, porque o rir era de graça e
o casar da maior graça era. O vestido de noiva esse sim fora caro e lhos
custaram da cara os olhos. E ao ficar pronto a moça se indigna e rasga, do
joelho pra baixo. Ah, meu querido, é a juventude pós-adolescente finita. O
carro ia, vermelho ao máximo, e o som tocava alto entre as árvores altas da
estrada vazia. Do teto solar vinha um vento enorme e esvoaçante que gritava por
Daiane. A menina se põe de pé no banco. Pra fora do carro, todo o tronco, e por
algum motivo a pele toda quis o vento e, ora!, em dois dias seria seu
aniversário! Dobrou a parte de cima do vestido branco até tocar a cintura,
desamarrou o sutiã e ah! Passou o vento pelos cabelos e o tronco estava nu, num
total espírito d’amour e de liberdad. A música alta se misturava ao vento amado
e os peitos livres cantavam, enfim, a liberdade de um pedaço de pano amarrado.