À beira do cais de Salvador, a cidade da Bahia, se aproxima Leandro de Leocádia. Os pretos estivadores em segundo de tempo haviam derrubado um saco de sal grosso no mar costeiro. Dissolve-se. Dilui. Ambos desnudos da cintura pra cima. Dois moleques semi-nus, não fosse a cabeleira sarará de Leocádia. Os dois agora contam dez, quase onze, e o Sol, que conta mais uns tantos, os queima a pele. "Leocádia, mete a roupa! Mãe já vem do mercado", a menina ri na alvisse dos dentes, um despontando permanente por trás. Liberta-se do aperto do irmão, corre um bucado e pula. Pleft! na água: "Você é franguinho, Leonardo. Xibungo!" E joga água salgada, fim de terra, começo de mar.
Tu que é!, a menina não ouve. Tu que é! Ele se irrita e se joga na água. Estão os dois agora molhados, salgados. Gêmeos de fato. "Tu é doida, Leocádia. Vamo'! Antes que mãe chegue" Ela nada até ele e cospe água no rosto. "Tu é franguinho, Leandro. Uma hora cai sua bigola". Oxe! "E tu que nem tem peito" É que eu sou homem "Não é não! Você usa calcinha" Mais que tu eu sou "Não é não!". Ele pega a mão dela por sob a água e mete dentro da cueca. "Viu, eu sou e você não" "Então por que tu não tem barba?" "É que eu sou menino" "Tu é menina! Eu vou ter barba e você vai crescer peito!" "Não vai não" Ele vai atrás dela, mas a menina é mais esperta na água. Nada rápido até um saveiro e pula dentro. Ele vai atrás em desespero. Tu é lerdo!, ri um riso enorme, de largo se enxerga o buraco nos dentes atrás. Leandro chega ao saveiro e sobe. Encara Leocádia. Tu que é! Ela cospe nele um cuspe doce, ele grunhe e os dois se embolam no chão saturado de areia. Ela grita: Solta meu cabelo! E ele: Tu me arranhou! Tu me arranhou! Ela se solta do aperto e senta longe no assoalho molhado. Dá a língua. Ele oferece a sua em resposta. Ficam emburrados, muito bravos. "Eu não sou mais seu irmão" Eu que não sou sua. "Bom mesmo!" Bom mesmo. Ele se irrita e levanta. "Eu vou embora!" Ela passa a mão pelos cabelos molhados: Oxe, vai! Ele a pega pelo braço: "Oh, Leocádia, vamo'! Prometo que lhe dou duas bola de gude " Quero cinco "Duas tá bom, Leocádia, vamo'!" Cinco. Ele grunhe e morde os beiços "Três!" "Já disse que cinco" "Vá, eu te dou quatro e deixa você brincar com o peão" "Todos os dias?" Todos. Ela se levanta e suspira Ai, ai! "Tu é franguinho de mais, Leandro. Vamo'!" E se atira na água pra em préstimo de tempo estar no cais.
Menina-moleque e moleque-menina. O que se encontra no portão da Bahia.