Os mortos
ressuscitaram na escura noite da cidade morta
Quando o Sol
se foi entre árvores estúpidas e montanhas trépidas, a igreja acendeu as luzes
bruxuleantes e irresponsáveis de velas parafinadas e fétidas. A igreja
católica, alta construção imponente e monumental, bruxuleava estranhamente
entre as casas baixas e coloridas da cidade acidentada. O povo de Cambares,
onde ainda se vivia na década de 1920, se viu de cabelos em pé com o repentino
e absurdo acendimento de tantas velas no início da noite. Lugar onde luz acesa
depois das oito já era coisa de gente vagabunda que não trabalha.
Qual não foi a
surpresa daquele povo tão conservador ao ver a igreja de padre Damião acesa
ali, às 6 da tarde, quase madrugada nos padrões cambarenses? Alguns moleques,
baderneiros, vagabundos audazes, se aproximaram da igreja estupefatos,
esperando alguma explicação para a igreja, entidade religiosa, de padre Damião,
homem de distinção e inteligência, estar naquelas horas, de tão repente, com
velas acesas, portas fechadas e emanando tão estranhos ruídos (vozes fracas e
verdes).
Na já escura
cidade nordestina, sob uma noite estrelada, cheia de deuses cada uma delas,
Cambares ouvia passos lentos e fortes. Como se gigantes bebês estivessem
andando sobre o assoalho amadeirado da igreja católica interiorana. Os curiosos
se aproximaram e o povo pôde ver a porta, num arranque, se abrir de súbito:
homens e mulheres pálidos, meninos e meninas azulados, cães e gatos raquíticos,
alterados.
Nenhum comentário:
Postar um comentário